quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
fisiológico vs cultural
Tenho saudades de alguém que me é querido. Mas, o certo, é que de há uns tempos para cá sempre que está comigo, diz coisas que me magoam. Por vezes nem é preciso estar junto, pois ouço e sinto o que diz mesmo sem a minha presença.
Isto faz-me pensar de quem tenho eu saudades e de quê?
De alguém que tudo o que dá é na esperança de contrapartida, mais que não seja submissão ou obediência, ao ponto de querer que quem é ajudado siga o projecto de vida que quem ajuda desenhou e não o seu próprio projecto?
De alguém que ao não obter a esperada contrapartida, acena com a ajuda que prestou como que uma dívida e apregoa aos sete ventos que ajudou e que quem foi ajudado é ingrato. Ingrato porque quis decidir sobre a própria vida? É isto ser ingrato?
Quem ajuda por amor genuíno não espera contrapartidas dessas.
A contrapartida que devemos esperar pela nossa dedicação aos nossos filhos deve ser que sejam felizes, mesmo que não entendamos a sua felicidade.
Mas há pais que consideram que eles é que sabem e definem o que é ser feliz para um filho. E quando o que faz estes felizes não é o que os progenitores planearam, rejeitam.
Nestes casos só me vem à cabeça uma frase que um psicólogo, que foi meu formador, disse uma vez: Um filho amar uma mãe é fisiológico mas uma mãe amar um filho é cultural.
Assim se entende o porquê da saudade...
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Tesouros da Infância
Há coisas que são sempre nossas, outras que nunca foram.
As memórias é o que temos de mais rico do passado.
Da minha infância pouco ou nada tenho hoje em dia, por vicissitudes da vida, as coisas materiais desse tempo foram-se perdendo ou sendo aprisionadas por terceiros.
Ontem lembrei-me da minha casa, do meu quarto, das minhas coisas...
O meu quarto cor-de-rosa, com a mobília única feita pelo avô da minha madrinha para ela, a qual me foi oferecida aquando a renovação do seu quarto.
Lembrei-me das coisas mais banais que, mesmo sem que eu desse por elas, faziam parte do meu dia-a-dia, do meu refugio, do único espaço que era realmente meu: o meu quarto.
Do meu tempo de infância pouco ou nada tenho hoje em dia, pouco ou nada tenho de objectos, de coisas...mas as memórias são minhas e essas ninguém me pode tirar ou privar.
Lembro-me dos dias de brincadeira infinitos; lembro-me da minha mãe junto à janela da sala à espera do meu pai que chegava do trabalho, algumas vezes acompanhada de um livro de palavras cruzadas; lembro-me de ver o meu pai a aparecer ao fundo da rua, com a sua pasta preta na mão, com um passo acelerado na pressa de chegar a casa; lembro-me dos vizinhos; lembro-me da escada, que era a mais luminosa que conhecia; lembro-me de passar horas em frente ao espelho do quarto dos meus pais; lembro-me....
Este tesouro da minha infância é meu e ninguém me o tira.
Mesmo que pouco ou nada tenha dos objectos que faziam parte desse tempo. Mesmo que as pessoas que se afastaram de mim, por não concordarem/aceitarem as minhas opções de vida, me vão privando e se privando de construir mais boas memórias em conjunto, nunca poderão sair da minha infância.
Essas memórias ninguém me tira, essas são minhas, as memórias do tempo em que era "a filha" a não só e apenas "a mãe dos netos".
As memórias é o que temos de mais rico do passado.
Da minha infância pouco ou nada tenho hoje em dia, por vicissitudes da vida, as coisas materiais desse tempo foram-se perdendo ou sendo aprisionadas por terceiros.
Ontem lembrei-me da minha casa, do meu quarto, das minhas coisas...
O meu quarto cor-de-rosa, com a mobília única feita pelo avô da minha madrinha para ela, a qual me foi oferecida aquando a renovação do seu quarto.
Lembrei-me das coisas mais banais que, mesmo sem que eu desse por elas, faziam parte do meu dia-a-dia, do meu refugio, do único espaço que era realmente meu: o meu quarto.
Do meu tempo de infância pouco ou nada tenho hoje em dia, pouco ou nada tenho de objectos, de coisas...mas as memórias são minhas e essas ninguém me pode tirar ou privar.
Lembro-me dos dias de brincadeira infinitos; lembro-me da minha mãe junto à janela da sala à espera do meu pai que chegava do trabalho, algumas vezes acompanhada de um livro de palavras cruzadas; lembro-me de ver o meu pai a aparecer ao fundo da rua, com a sua pasta preta na mão, com um passo acelerado na pressa de chegar a casa; lembro-me dos vizinhos; lembro-me da escada, que era a mais luminosa que conhecia; lembro-me de passar horas em frente ao espelho do quarto dos meus pais; lembro-me....
Este tesouro da minha infância é meu e ninguém me o tira.
Mesmo que pouco ou nada tenha dos objectos que faziam parte desse tempo. Mesmo que as pessoas que se afastaram de mim, por não concordarem/aceitarem as minhas opções de vida, me vão privando e se privando de construir mais boas memórias em conjunto, nunca poderão sair da minha infância.
Essas memórias ninguém me tira, essas são minhas, as memórias do tempo em que era "a filha" a não só e apenas "a mãe dos netos".
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Nomes, alcunhas e afins
Teria de ser algo ainda com páginas a preencher, porque à velocidade que a lista cresce, não havia orçamento para actualização de documentos que lhe valesse.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
domingo, 7 de agosto de 2011
Gostava de vos ver aqui
Gostava de estar aí
A ver o que se passa aqui, no palco
P’ra não fazer juízo errado
Pois isto de cantar,
É muito mais difícil
Cá deste lado
Às vezes vocês daí
Nem sonham o que vai pra’qui, no palco
Nem pensam que na vossa frente
Quem canta, quem vos diz as coisas
Também é gente
Gente que trabalha,
Como um Carpinteiro
Como um Camponês
Ou como um Mineiro
Gente que faz o trabalho
Como faz amor,
Amor verdadeiro
Gente que vos diz,
Que a canção sou eu,
A canção és tu,
Por isso cresceu
A canção é p’ra vocês,
E só p’ra vocês,
A canção nasceu
Às vezes ficar aí
É fácil, é melhor que estar aqui
É fácil estar aí sentado
Por isto ou por aquilo
Julgar quem canta
Cá deste lado
Gostava de vos ver aqui
Aqui ao pé de mim e não aí
E assim seria bem diferente
Fazia da canção um palco
p’ra toda a gente
(Paulo de Carvalho)
A ver o que se passa aqui, no palco
P’ra não fazer juízo errado
Pois isto de cantar,
É muito mais difícil
Cá deste lado
Às vezes vocês daí
Nem sonham o que vai pra’qui, no palco
Nem pensam que na vossa frente
Quem canta, quem vos diz as coisas
Também é gente
Gente que trabalha,
Como um Carpinteiro
Como um Camponês
Ou como um Mineiro
Gente que faz o trabalho
Como faz amor,
Amor verdadeiro
Gente que vos diz,
Que a canção sou eu,
A canção és tu,
Por isso cresceu
A canção é p’ra vocês,
E só p’ra vocês,
A canção nasceu
Às vezes ficar aí
É fácil, é melhor que estar aqui
É fácil estar aí sentado
Por isto ou por aquilo
Julgar quem canta
Cá deste lado
Gostava de vos ver aqui
Aqui ao pé de mim e não aí
E assim seria bem diferente
Fazia da canção um palco
p’ra toda a gente
(Paulo de Carvalho)
sábado, 6 de agosto de 2011
Parov Stelar - Catgroove (TSC - Forsythe)
A segunda música da última coreografia de ballet contemporâneo deste ano: Into the Groove
Com uns figurinos fantásticos: calções pretos curtinhos, t-shirt justa branca e blazers de homem grandes.
Parov Stelar - Booty Swing (TSC - Forsythe)
Uma das músicas da última coreografia de ballet contemporâneo deste ano (a primeira música): Into the Groove
Hoje chamaram-me de Saltimbanco.
Quem dera ter tal arte. De qualquer forma um elogio deve-se sempre
agradecer...lamentavelmente não sei a quem o fazer pois tal atributo foi
me dito por escrito sem ser assinado.
Nova cara...
...o mesmo objectivo, ir "desabafando" algumas reflexões. :)
Obrigado pelas visitas.
Já agora, uma reflexão para hoje: confiem nos vossos instintos no que toca ao vosso trabalho. Se errarem será porque tentaram e não porque fizeram o que os outros achavam melhor.
Obrigado pelas visitas.
Já agora, uma reflexão para hoje: confiem nos vossos instintos no que toca ao vosso trabalho. Se errarem será porque tentaram e não porque fizeram o que os outros achavam melhor.
O Valor da Opinião dos Outros
"Muitas vezes tenho cismado em como é possível que cada homem ame a si mesmo mais que ao resto dos homens e, não obstante, dê menos valor à sua opinião de si próprio que à opinião dos outros. Se, pois, um deus ou um mestre sábio se apresentasse a um homem e lhe pedisse que não pensasse nada e não intentasse nada sem o expressar tão logo o concebesse, esse homem não suportaria tal situação um único dia que fosse. Muito mais respeito temos por aquilo que os nossos vizinhos possam pensar de nós do que por aquilo que pensamos a nosso próprio respeito."
Marco Aurélio, in 'Pensamentos e Reflexões'
"Na realidade, o valor e a preocupação constante que atribuímos à opinião alheia ultrapassam, em regra, quase todo o objectivo ponderado, de modo que ela pode ser vista como uma espécie de mania generalizada ou, antes, inata.
Em tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, levamos em consideração a opinião alheia quase antes de qualquer outra coisa, e se fizermos uma análise precisa veremos que dessa preocupação nasce praticamente a metade de todas as aflições e de todos os temores sentidos por nós. Pois a opinião alheia é a origem de todo o nosso amor próprio - muitas vezes magoado por ter uma sensibilidade doentia -, de todas as nossas vaidades e pretensões, bem como de nosso fausto e de nossa presunção."
Em tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, levamos em consideração a opinião alheia quase antes de qualquer outra coisa, e se fizermos uma análise precisa veremos que dessa preocupação nasce praticamente a metade de todas as aflições e de todos os temores sentidos por nós. Pois a opinião alheia é a origem de todo o nosso amor próprio - muitas vezes magoado por ter uma sensibilidade doentia -, de todas as nossas vaidades e pretensões, bem como de nosso fausto e de nossa presunção."
Arthur Schopenhauer, in 'A Arte de Insultar'
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
quarta-feira, 27 de julho de 2011
De volta ao trabalho
Sabe tão bem ter férias e principalmente porque se trabalha.
Não fui feita para estar em casa, para viver à custa de alguém.
Chegam alturas do ano que preciso meeeeesmo de férias, mas não saberia viver sem esta azafama do dia-a-dia.
Gosto de acordar de manhã, de receber um "bom dia de trabalho para ti, meu amor", de encontrar a vizinha na escada que também vai trabalhar, de beber a minha primeira bica no sitio do costume onde já sabem ao que vou e como gosto do café, gosto de chegar ao fim do dia e perguntar "como correu o teu dia, meu amor?", trocar impressões sobre o que se passou e sobre a actualidade... sentir que faço parte de um todo, que contribuo para o todo e, principalmente, para o bem estar da minha família.
Ter férias é fantástico, revigora e renova-nos, mas tudo isto tem muito mais valor porque são férias porque são o descanso do trabalho.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Positivo fica, negativo....qual negativo????
Hoje apetecia-me escrever aqui tanta coisa...coisas de tão dantescas e absurdas que são, não valem o esforço.
Não valem o esforço principalmente porque elas próprias se tornam acessórias.
Tornam-se acessórias por responsabilidade dos respectivos intervenientes.
A vida é curta e eu e o meu parceiro já nos encontrámos não muito cedo. Só por isso, fui aprendendo que o que não é, ou não quer ter, um sentido positivo na nossa vida não é suficientemente importante.
Assim, só temos coisas boas e positivas na nossa vida.
Não valem o esforço principalmente porque elas próprias se tornam acessórias.
Tornam-se acessórias por responsabilidade dos respectivos intervenientes.
A vida é curta e eu e o meu parceiro já nos encontrámos não muito cedo. Só por isso, fui aprendendo que o que não é, ou não quer ter, um sentido positivo na nossa vida não é suficientemente importante.
Assim, só temos coisas boas e positivas na nossa vida.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
More than meets the eye (que é mais ou menos como quem diz: mais do que o que se vê)
Há quase 10 anos que tenho de resolver o problema das férias de verão dos meus pequenos. Primeiro, antes da escola obrigatória era por os Jardins de Infância e Creches fecharem todos em Agosto não havendo alternativa, depois no 1º ciclo porque as férias são muitas e tinha de despender uma parte significativa do orçamento mensal para Campos de Férias. Os períodos de pausa escolares e pré-escolares foi sempre um problema complicado por serem sempre maiores que o numero de dias de férias que tenho direito por ano.
Ora, não sou de me queixar, resolvo o que há a resolver, ando a correr de uma lado para o outro para acautelar o bem estar dos pequenotes e pronto. A minha ausência de queixas, pelos vistos degenerou num esfumaçar destes problemas ao longo de todos estes anos que parecem uma novidade hoje em dia.
Finalmente, ao fim de tanto tempo, e só depois da minha separação, este deixou de ser um problema exclusivamente meu e passou a ser também um problema do pai dos meus filhotes (pelo menos no período de férias dos meninos que lhe cabe), passando a ser algo visível aos olhos dos demais. Achei curioso agora ser visto como um problema complicado de resolver, com o seu "q" de preocupante.
Pois é meus amigos, nada de novo para mim, é algo que já estou mais que "expert" a resolver. Esta é mais uma das características de uma mãe, daquelas que passam despercebidas a todos os que só se ocupam com a parte lúdica das crianças. Existe todo um mundo de preocupações e assuntos logísticos a resolver que passam despercebidos a todos, sendo até desconhecida a sua existência.
Ser mãe (ou educador activo) é tanto mais que o que se vê...Um louvor a todos os pais/mães de coração que fazem coisas "invisíveis" pelos seus petizes.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Um Segredo de um Casamento Feliz
Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.
Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.
Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.
O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.
O nosso casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade.
Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.
O nosso casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais.
Foram concordados, são desenvolvidos, são revistos, são alterados, esquecidos e discutidos. Mas um casamento feliz com dez anos, tal como um filho de dez anos, tem uma personalidade mais rica e mais bem sustentada, expressa e divertida do que um bebé com um ano de idade.
Eu só vivo desta maneira - que é o nosso casamento - vivendo com a Maria João, da maneira como estamos um com o outro, casados. Nada é exportável. Não há bocados do nosso casamento que eu possa levar comigo, caso ele acabe.
O casamento é um filho carente que dá mais prazer do que trabalho. Dá-se de comer ao bebé mas, felizmente, o organismo do bebé é que faz o trabalho dificílimo, embora automático, de converter essa comida em saúde e crescimento.
Também o casamento precisa de ser alimentado mas faz sozinho o aproveitamento do que lhe damos. Às vezes adoece e tem de ser tratado com cuidados especiais. Às vezes os casamentos têm de ir às urgências. Mas quanto mais crescem, menos emergências há e melhor sabemos lidar com elas.
Se calhar, os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar no primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é o casamento deles. É irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. O bebé idealmente é amado e cuidado pela mãe, pelo pai e pelo casamento feliz dos pais.
Se o primeiro filho que nasce é considerado o primeiro, pode apagar o casamento ou substitui-lo. Os pais jovens - os homens e as mulheres - têm de tomar conta de ambos os filhos. Se a mãe está a tratar do filho em carne e osso, o pai, em vez de queixar-se da falta de atenção, deve tratar do mais velho: do casamento deles, mantendo-o romântico e atencioso.
Ao contrário dos outros filhos, o primeiro nunca sai de casa, está sempre lá. Vale a pena tratar dele. Em contrapartida, ao contrário dos outros filhos, desaparece para sempre com a maior das facilidades e as mais pequenas desatenções. O casamento feliz faz parte da família e faz bem a todos os que também fazem parte dela.
Os livros que li dão a ideia de que os casamentos felizes dão muito trabalho. Mas se dão muito trabalho como é que podem ser felizes? Os livros que li vêem o casamento como uma relação entre duas pessoas em que ambas transigem e transaccionam para continuarem juntas sem serem infelizes. Que grande chatice!
Quando vemos o trabalho que os filhos pequenos dão aos pais, parece-nos muito e mal pago, porque não estamos a receber nada em troca. Só vemos a despesa: o miúdo aos berros e a mãe aflita, a desfazer-se em mimos.
É a mesma coisa com os casamentos felizes. Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é, que ficaram a ganhar, por muito que tenham perdido. O que recebem do filho compensa o que lhe deram. E mais: também pensam que fizeram bem ao filho. Sacrificam-se mas sentem-se recompensados.Num casamento feliz, cada um pensa que tem mais a perder do que o outro, caso o casamento desapareça. Sente que, se isso acontecer, fica sem nada. É do amor. Só perdeu o casamento deles, que eles criaram, mas sente que perdeu tudo: ela, o casamento deles e ele próprio, por já não se reconhecer sozinho, por já não saber quem é - ou querer estar com essa pessoa que ele é.
Se o casamento for pensado e vivido como uma troca vantajosa - tu dás-me isto e eu dou-te aquilo e ambos ficamos melhores do que se estivéssemos sozinhos -, até pode ser feliz, mas não é um casamento de amor.
Quando se ama, não se consegue pensar assim. E agora vem a parte em que se percebe que estes conselhos de nada valem - porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se casado com a pessoa que se ama, mesmo que ela não nos ame.
Ouvir um casado feliz a falar dos segredos de um casamento feliz é como ouvir um bilionário a explicar como é que se deve tomar conta de uma frota de aviões particulares - quantos e quais se devem comprar e quais as garrafas que se deve ter no bar, para agradar aos convidados.
Dirijo-me então às únicas pessoas que poderão aproveitar os meus conselhos: homens apaixonados pelas mulheres com quem estão casados.
E às mulheres apaixonadas pelos homens com quem estão casadas? Não tenho nada a dizer. Até porque a minha mulher continua a ser um mistério para mim. É um mistério que adoro, mas constitui uma ignorância especulativa quase total.
Assim chego ao primeiro conselho: os homens são homens e as mulheres são mulheres. A mulher pode ser muito amiga, mas não é um gajo. O marido pode ser muito amigo, mas não é uma amiga.
Nos livros profissionais, dizem que a única grande diferença entre homens e mulheres é a maneira como "lidam com o conflito": os homens evitam mais do que as mulheres. Fogem. Recolhem-se, preferem ficar calados.
Por acaso é verdade. Os livros podem ser da treta mas os homens são mais fugidios.
Em vez de lutar contra isso, o marido deve ceder a essa cobardia e recolher-se sempre que a discussão der para o torto. Não pode ser é de repente. Tem de discutir (dizê-las e ouvi-las) um bocadinho antes de fugir.
Não pode é sair de casa ou ir ter com outra pessoa. Deve ficar sozinho, calado, a fumegar e a sofrer. Ele prende-se ali para não dizer coisas más.
As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. Ou, pior ainda, de se repetirem tanto, banalizam-se. Perdem força e, com essa força, perde-se muito mais.
As zangas passam porque são substituídas pela saudade. No momento da zanga, a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco - ou muito - depois, a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Dantes estávamos apenas magoados. Agora continuamos magoados mas também estamos um bocadinho arrependidos e esperamos que ela também esteja um bocadinho.
Nunca podemos esconder os nossos sentimentos mas podemos esconder-nos até poder mostrá-los com gentileza e mágoa que queira mimo e não proclamação.
Consiste este segredo em esperar que o nosso amor por ela nos puxe e nos conduza. A tempestade passa, fica o orgulho mas, mesmo com o orgulho, lá aparece a saudade e a vontade de estar com ela e, sobretudo, empurrador, o tamanho do amor que lhe temos comparado com as dimensões tacanhas daquela raivinha ou mágoa. Ou comparando o que ganhamos em permanecer ali sozinhos com o que perdemos por não estar com ela.
Mas não se pode condescender ou disfarçar. Para haver respeito, temos de nos fazer respeitar. Tem de ficar tudo dito, exprimido com o devido amuo de parte a parte, até se tornar na conversa abençoada acerca de quem é que gosta menos do outro.Há conflitos irresolúveis que chegam para ginasticar qualquer casal apaixonado sem ter de inventar outros. Assim como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao doente, o primeiro cuidado de um casamento feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários.
No dia-a-dia, é preciso haver arenas designadas onde possamos marrar uns com os outros à vontade. No nosso caso, é a cozinha. Discutimos cada garfo, cada pitada de sal, cada lugar no frigorífico com desabrida selvajaria.
Carregamos a cozinha de significados substituídos - violentos mas saudáveis e, com um bocadinho de boa vontade, irreconhecíveis. Não sabemos o que representam as cores dos pratos nas discussões que desencadeiam. Alguma coisa má - competitiva, agressiva - há-de ser. Poderíamos saber, se nos déssemos ao trabalho, mas preferimos assim.
A cozinha está encarregada de representar os nossos conflitos profundos, permanentes e, se calhar, irresolúveis. Não interessa. Ela fornece-nos uma solução superficial e temporária - mas altamente satisfatória e renovável. Passando a porta da cozinha para irmos jantar, é como se o diabo tivesse ficado lá dentro.
Outro coliseu de carnificina autorizada, que mesmo os casais que não podem um com o outro têm prazer em frequentar, é o automóvel. Aí representamos, através da comodidade dos mapas e das estradas mesmo ali aos nossos pés, as nossas brigas primais acerca das nossas autonomias, direcções e autoridades para tomar decisões que nos afectam aos dois, blá blá blá.
Vendo bem, os casamentos felizes são muito mais dramáticos, violentos, divertidos e surpreendentes do que os infelizes. Nos casamentos infelizes é que pode haver, mantidas inteligentemente as distâncias, paz e sossego no lar.
Miguel Esteves Cardoso, in "Jornal Público"
Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.
Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.
O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.
O nosso casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade.
Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.
O nosso casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais.
Foram concordados, são desenvolvidos, são revistos, são alterados, esquecidos e discutidos. Mas um casamento feliz com dez anos, tal como um filho de dez anos, tem uma personalidade mais rica e mais bem sustentada, expressa e divertida do que um bebé com um ano de idade.
Eu só vivo desta maneira - que é o nosso casamento - vivendo com a Maria João, da maneira como estamos um com o outro, casados. Nada é exportável. Não há bocados do nosso casamento que eu possa levar comigo, caso ele acabe.
O casamento é um filho carente que dá mais prazer do que trabalho. Dá-se de comer ao bebé mas, felizmente, o organismo do bebé é que faz o trabalho dificílimo, embora automático, de converter essa comida em saúde e crescimento.
Também o casamento precisa de ser alimentado mas faz sozinho o aproveitamento do que lhe damos. Às vezes adoece e tem de ser tratado com cuidados especiais. Às vezes os casamentos têm de ir às urgências. Mas quanto mais crescem, menos emergências há e melhor sabemos lidar com elas.
Se calhar, os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar no primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é o casamento deles. É irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. O bebé idealmente é amado e cuidado pela mãe, pelo pai e pelo casamento feliz dos pais.
Se o primeiro filho que nasce é considerado o primeiro, pode apagar o casamento ou substitui-lo. Os pais jovens - os homens e as mulheres - têm de tomar conta de ambos os filhos. Se a mãe está a tratar do filho em carne e osso, o pai, em vez de queixar-se da falta de atenção, deve tratar do mais velho: do casamento deles, mantendo-o romântico e atencioso.
Ao contrário dos outros filhos, o primeiro nunca sai de casa, está sempre lá. Vale a pena tratar dele. Em contrapartida, ao contrário dos outros filhos, desaparece para sempre com a maior das facilidades e as mais pequenas desatenções. O casamento feliz faz parte da família e faz bem a todos os que também fazem parte dela.
Os livros que li dão a ideia de que os casamentos felizes dão muito trabalho. Mas se dão muito trabalho como é que podem ser felizes? Os livros que li vêem o casamento como uma relação entre duas pessoas em que ambas transigem e transaccionam para continuarem juntas sem serem infelizes. Que grande chatice!
Quando vemos o trabalho que os filhos pequenos dão aos pais, parece-nos muito e mal pago, porque não estamos a receber nada em troca. Só vemos a despesa: o miúdo aos berros e a mãe aflita, a desfazer-se em mimos.
É a mesma coisa com os casamentos felizes. Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é, que ficaram a ganhar, por muito que tenham perdido. O que recebem do filho compensa o que lhe deram. E mais: também pensam que fizeram bem ao filho. Sacrificam-se mas sentem-se recompensados.Num casamento feliz, cada um pensa que tem mais a perder do que o outro, caso o casamento desapareça. Sente que, se isso acontecer, fica sem nada. É do amor. Só perdeu o casamento deles, que eles criaram, mas sente que perdeu tudo: ela, o casamento deles e ele próprio, por já não se reconhecer sozinho, por já não saber quem é - ou querer estar com essa pessoa que ele é.
Se o casamento for pensado e vivido como uma troca vantajosa - tu dás-me isto e eu dou-te aquilo e ambos ficamos melhores do que se estivéssemos sozinhos -, até pode ser feliz, mas não é um casamento de amor.
Quando se ama, não se consegue pensar assim. E agora vem a parte em que se percebe que estes conselhos de nada valem - porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se casado com a pessoa que se ama, mesmo que ela não nos ame.
Ouvir um casado feliz a falar dos segredos de um casamento feliz é como ouvir um bilionário a explicar como é que se deve tomar conta de uma frota de aviões particulares - quantos e quais se devem comprar e quais as garrafas que se deve ter no bar, para agradar aos convidados.
Dirijo-me então às únicas pessoas que poderão aproveitar os meus conselhos: homens apaixonados pelas mulheres com quem estão casados.
E às mulheres apaixonadas pelos homens com quem estão casadas? Não tenho nada a dizer. Até porque a minha mulher continua a ser um mistério para mim. É um mistério que adoro, mas constitui uma ignorância especulativa quase total.
Assim chego ao primeiro conselho: os homens são homens e as mulheres são mulheres. A mulher pode ser muito amiga, mas não é um gajo. O marido pode ser muito amigo, mas não é uma amiga.
Nos livros profissionais, dizem que a única grande diferença entre homens e mulheres é a maneira como "lidam com o conflito": os homens evitam mais do que as mulheres. Fogem. Recolhem-se, preferem ficar calados.
Por acaso é verdade. Os livros podem ser da treta mas os homens são mais fugidios.
Em vez de lutar contra isso, o marido deve ceder a essa cobardia e recolher-se sempre que a discussão der para o torto. Não pode ser é de repente. Tem de discutir (dizê-las e ouvi-las) um bocadinho antes de fugir.
Não pode é sair de casa ou ir ter com outra pessoa. Deve ficar sozinho, calado, a fumegar e a sofrer. Ele prende-se ali para não dizer coisas más.
As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. Ou, pior ainda, de se repetirem tanto, banalizam-se. Perdem força e, com essa força, perde-se muito mais.
As zangas passam porque são substituídas pela saudade. No momento da zanga, a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco - ou muito - depois, a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Dantes estávamos apenas magoados. Agora continuamos magoados mas também estamos um bocadinho arrependidos e esperamos que ela também esteja um bocadinho.
Nunca podemos esconder os nossos sentimentos mas podemos esconder-nos até poder mostrá-los com gentileza e mágoa que queira mimo e não proclamação.
Consiste este segredo em esperar que o nosso amor por ela nos puxe e nos conduza. A tempestade passa, fica o orgulho mas, mesmo com o orgulho, lá aparece a saudade e a vontade de estar com ela e, sobretudo, empurrador, o tamanho do amor que lhe temos comparado com as dimensões tacanhas daquela raivinha ou mágoa. Ou comparando o que ganhamos em permanecer ali sozinhos com o que perdemos por não estar com ela.
Mas não se pode condescender ou disfarçar. Para haver respeito, temos de nos fazer respeitar. Tem de ficar tudo dito, exprimido com o devido amuo de parte a parte, até se tornar na conversa abençoada acerca de quem é que gosta menos do outro.Há conflitos irresolúveis que chegam para ginasticar qualquer casal apaixonado sem ter de inventar outros. Assim como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao doente, o primeiro cuidado de um casamento feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários.
No dia-a-dia, é preciso haver arenas designadas onde possamos marrar uns com os outros à vontade. No nosso caso, é a cozinha. Discutimos cada garfo, cada pitada de sal, cada lugar no frigorífico com desabrida selvajaria.
Carregamos a cozinha de significados substituídos - violentos mas saudáveis e, com um bocadinho de boa vontade, irreconhecíveis. Não sabemos o que representam as cores dos pratos nas discussões que desencadeiam. Alguma coisa má - competitiva, agressiva - há-de ser. Poderíamos saber, se nos déssemos ao trabalho, mas preferimos assim.
A cozinha está encarregada de representar os nossos conflitos profundos, permanentes e, se calhar, irresolúveis. Não interessa. Ela fornece-nos uma solução superficial e temporária - mas altamente satisfatória e renovável. Passando a porta da cozinha para irmos jantar, é como se o diabo tivesse ficado lá dentro.
Outro coliseu de carnificina autorizada, que mesmo os casais que não podem um com o outro têm prazer em frequentar, é o automóvel. Aí representamos, através da comodidade dos mapas e das estradas mesmo ali aos nossos pés, as nossas brigas primais acerca das nossas autonomias, direcções e autoridades para tomar decisões que nos afectam aos dois, blá blá blá.
Vendo bem, os casamentos felizes são muito mais dramáticos, violentos, divertidos e surpreendentes do que os infelizes. Nos casamentos infelizes é que pode haver, mantidas inteligentemente as distâncias, paz e sossego no lar.
Miguel Esteves Cardoso, in "Jornal Público"
quarta-feira, 15 de junho de 2011
"amor de uma vida" vs "amor de sempre e para sempre"
Ontem tive a clara noção de quão erradamente é usada a expressão "amor da minha vida".
Pode haver efectivamente o "amor de uma vida", no entanto, este nem sempre coincide com o amor pela Alma Gémea, o Amor Eterno, o Amor de sempre para sempre.
Passo a explicar a minha noção de "amor de uma vida" e de "Amor pela Alma Gémea"
O "amor da uma vida" é o maior de determinada vida, tenha existido nesta um ou n; o Amor pela Alma Gémea é o supremo de todas as vidas, até mesmo depois de todas elas, até mesmo depois da morte.
O Amor pela Alma Gémea existe desde sempre e permanece para todo o sempre....
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Ciúme
"É espantoso como o ciúme, que passa o tempo a fazer pequenas suposições em falso, tem pouca imaginação quando se trata de descobrir a verdade."Fonte - A FugitivaAutor - Proust , Marcel
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Dou mas....
Afinal não é só o FMI que ajuda mediante condições. Há muito mais quem diga:
- Se não fizeres o que eu digo, não ajudo!
Quem dá com uma mão e tira com a outra....como é o ditado???
Ah, já me lembro: "Quem dá e tira para o inferno gira"; ou também serve: "Quem dá e volta a tirar, ao inferno vai parar".
Dar com condições, não é dar. Pode ser muita coisa mas generosidade não é de certeza, e o que quer que seja é de origem muito negativa. Consequentemente não pode ser geradora de nada de bom nem a quem "dá" nem a quem "recebe"
- Se não fizeres o que eu digo, não ajudo!
Quem dá com uma mão e tira com a outra....como é o ditado???
Ah, já me lembro: "Quem dá e tira para o inferno gira"; ou também serve: "Quem dá e volta a tirar, ao inferno vai parar".
Dar com condições, não é dar. Pode ser muita coisa mas generosidade não é de certeza, e o que quer que seja é de origem muito negativa. Consequentemente não pode ser geradora de nada de bom nem a quem "dá" nem a quem "recebe"
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